Hoje é 21 de dezembro.
O solstício de verão marca o dia mais longo do ano, mas não é sobre luz em excesso que quero falar. É sobre permanência. Sobre continuar quando já não existe a euforia do começo nem a pressão de um grande recomeço.
Escrever, para mim, nunca foi apenas produzir texto. Sempre foi um modo de me orientar no mundo. Um jeito de escutar o que está acontecendo por dentro enquanto a vida segue por fora, com suas demandas, ruídos e expectativas.
Volto a escrever aqui sem anúncio, sem ritual de inauguração. Apenas sigo. Porque continuar também é um gesto de cuidado: com a vida que está sendo vivida agora, e não com aquela que imaginamos viver depois de “dar conta de tudo”.
Existe uma ideia muito difundida de que produtividade tem a ver com acelerar, acumular, otimizar. Fazer mais em menos tempo. Avançar. Escalar. Mas, com o tempo, fui entendendo que há uma outra camada possível: uma produtividade que se mede pela capacidade de permanecer inteira enquanto se vive.
Permanecer inteira quando o corpo pede pausa.
Quando a mente está cansada.
Quando o entusiasmo oscila.
Quando a vida não cabe em planilhas.
Continuar escrevendo, hoje, não é um projeto. É um gesto pequeno, quase doméstico. Como abrir a janela pela manhã. Como preparar um café sem pressa. Como sentar para ouvir o que o dia tem a dizer antes de decidir o que fazer com ele.

Talvez seja isso que venho chamando de produtividade compassiva: uma forma de estar no mundo que não exige violência interna para funcionar. Uma prática cotidiana de escuta, ajuste e presença. Nem sempre eficiente aos olhos de fora, mas profundamente honesta para quem vive por dentro.
Neste final de ano, enquanto tantas narrativas falam em fechamento, metas e balanços, eu prefiro esse outro movimento: o da continuidade suave. O de não abandonar o que importa só porque não está rendendo como esperado. O de permanecer em diálogo com a própria vida.
Hoje eu escrevo para marcar presença. Amanhã, escrevo de novo se fizer sentido. Sem promessa de regularidade perfeita, mas com compromisso de verdade.
Continuar também é isso:
não desistir de si no meio do caminho.

Texto mais que necessário!
obrigada por isso 🙂