O tempo do entre também conta
O tempo do entre também conta

Hoje é dia de deslocamento.
Esses dias estranhos em que o corpo se move, mas a vida parece suspensa entre um ponto e outro. Não estamos exatamente onde estávamos, nem ainda onde vamos chegar. Estamos no entre.

O mundo costuma tratar esses dias como dias que não rendem. Não se produz, não se decide, não se conclui. O tempo escorre em estradas, filas, malas, janelas. E, no entanto, algo acontece — mesmo quando nada parece acontecer.

Existe um tipo de tempo que não serve para performar. Ele não aceita listas, metas nem urgências. É um tempo de atravessamento. Um tempo em que a vida continua trabalhando silenciosamente, reorganizando afetos, pensamentos e percepções enquanto seguimos em movimento.

Talvez seja por isso que esses dias cansem tanto. Não porque são improdutivos, mas porque exigem entrega. Não há muito o que controlar. O corpo precisa se adaptar. A mente precisa esperar. A paisagem muda sem pedir opinião.

O tempo do entre não pede decisões rápidas. Ele pede escuta. Pede aceitar que nem todo dia é dia de avanço visível. Alguns dias são apenas passagens necessárias entre um estado e outro.

Na lógica da produtividade tradicional, o deslocamento é perda. Na lógica da vida, é costura. É ali que as coisas se rearranjam sem alarde, preparando o terreno para o que ainda não sabemos nomear.

Hoje é um desses dias.
E tudo bem não chegar a lugar nenhum além do próprio caminho.

2 thoughts on “O tempo do entre também conta

  1. Thais,
    Como estava com saudade dos seus textos profundos, acolhedores e cheios de afeto…
    Muito obrigada por compartilhar tanta sabedoria antiga com a gente.
    Que esse novo ciclo seja repleto de colheitas maravilhosas!
    Sucesso
    Um abraço

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