Este é um post sobre relacionamentos.
Recentemente eu estava conversando com uma amiga que é toda mística e esotérica e estávamos conversando sobre signos, karma e assuntos relacionados. E eu, solteira, conversando com ela sobre meus aprendizados no último ano sobre relacionamentos, términos e percepções, quando ela me provocou: "você precisa descobrir qual o carma que você tem para se relacionar sempre com signos do elemento terra". Afinal, estamos falando sobre uma recorrência com capricórnio, virgem e touro. Levei isso como um projeto de autoconhecimento e descobri algo que me ajudou bastante a compreender essa busca e como encontrar isso em mim mesma.
O que eu fui entendendo, aos poucos, é que essa atração recorrente não tinha a ver exatamente com os signos em si, mas com o que eles simbolizavam na minha vida Terra, nesse caso, não era personalidade. Era promessa. Promessa de chão, de constância, de alguém que não vai embora no meio da noite emocional. E quando a gente vive muito tempo em mar aberto, qualquer sinal de cais começa a brilhar como farol.
Sim, eu sou mar aberto. Como tantas mulheres que foram obrigadas a aprender cedo a se sustentar, a decidir sozinhas, a seguir mesmo quando ninguém segurava a mão. Mulheres vividas, não no sentido romântico, mas no sentido prático da sobrevivência. Cada ato de autonomia foi também um ato de empoderamento, ainda que às vezes cansativo, ainda que muitas vezes solitário.
Quando o corpo aprende que a paz é rara, que o repouso é luxo e que ser sustentada emocionalmente é exceção, algo muito específico acontece com o desejo. Ele começa a mirar menos no fogo e mais no chão. Menos na aventura e mais na promessa silenciosa de permanência. O erotismo deixa de ser apenas sexual e passa a ser somático. O tesão vira essa sensação profunda de finalmente poder largar a armadura.
A erotização do porto seguro nasce aí. Não como carência, mas como resposta corporal a uma vida inteira em mar aberto. O desejo não está exatamente no outro, mas no que o outro parece oferecer. Silêncio começa a parecer maturidade. Previsibilidade passa a soar como profundidade. Pouca presença vira “ele é assim mesmo”. Contenção se confunde com erotismo.
E então acontece algo sutil e perigoso. A mulher que é tempestade criativa começa a se encolher para caber no cais de alguém. Não porque quer desaparecer, mas porque quer descansar. Não porque deseja menos, mas porque deseja parar de lutar. O problema não é desejar porto. O problema é quando o porto vira fetiche porque você mesma vive em estado permanente de travessia. É uma confusão, na real. Porque o cais ali não é porto seguro. E não era maturidade, só silêncio. Em vez de profundidade, previsibilidade. Aceitação de comportamentos que geram insegurança disfarçados de entendimento ("é o jeito dele"). Não era segura. Era contenção. E água tranquila é diferente de água parada. Água parada atrai dengue. Apodrece.
É aí que o carma se revela. Não como punição, mas como padrão. Um radar afetivo calibrado para confundir estabilidade com amor, chão com vínculo, silêncio com segurança. A repetição não é azar. É linguagem do corpo pedindo algo que ainda não foi construído por dentro.
A cura não está em virar desapegada, fria ou performaticamente independente. Muito menos em repetir o discurso de autonomia vazia que transforma autossuficiência em nova forma de solidão. A cura está em erotizar o próprio chão. Em aprender a ser porto de si sem endurecer. Em criar sustentação interna suficiente para que o descanso não dependa da presença de alguém. É apenas isso. E como eu aprendi a ser o meu porto seguro?
Quando aprendi a construir rotinas que me seguram num lugar bom, quando eu crio um mínimo de segurança emocional e financeira, quando sustento meus ritmos sem pedir licença e aprendo a descansar sem precisar de autorização externa. Algo muda no corpo. O radar muda. O desejo muda. O destralhe é natural. Tanto em casa quanto nas relações quanto no corpo.
O tesão deixa de ser um pedido silencioso de “me segura, por favor” e vira um convite inteiro de “vem caminhar comigo, mas eu fico em pé sozinha”. A relação deixa de ser abrigo e passa a ser encontro. Não mais compensação, mas escolha.
E existe uma virada linda, quase alquímica, nesse ponto. Quando você vira seu próprio porto, a Terra não te captura. Ela te encontra. Você não se excita mais pela promessa de estabilidade. Você se excita pela presença viva que escolhe ficar. Aqui em Paraty-RJ, é comum ouvir a expressão "aqui é uma terra onde a montanha encontra o mar", pela disposição da natureza ao redor. E faz sentido citar isso neste texto porque, quando a montanha encontra o mar, nenhum dos dois deixa de ser o que é. Eles coexistem, se tocam, se moldam mutuamente. E ali nasce uma paisagem viva, potente, inteira. A terra encontra o mar como ele é. Talvez amar, afinal, seja isso: não buscar um porto para ancorar, mas um encontro onde seja possível permanecer sendo mar, diante de alguém que não precise nos conter para estar.
Isso não é menos intenso.
É infinitamente melhor.


Que reflexão linda! Nesse momento de recomeços e esperanças renovadas ler sobre montanha e mar coexistindo, se moldando da forma de cada um é mais um sinal de que o autoconhecimento continua sendo a melhor forma de nos encontrarmos.