Você não tem problemas. Você só tem projetos.
Você não tem problemas. Você só tem projetos.

Existe uma frase do David Allen, criador do método GTD, que sempre me marcou muito: “você não tem problemas, você só tem projetos.”

Quando ouvi essa frase pela primeira vez, fiquei intrigada refletindo sobre como realmente se aplica a absolutamente qualquer situação da nossa vida.

A maioria das coisas que chamamos de problema são, na verdade, apenas situações mal definidas. Algo nos incomoda, algo não está funcionando bem, algo parece travado. Só que essa sensação fica solta na cabeça, sem contorno claro. A gente pensa naquilo várias vezes ao longo do dia, sente peso mental, mas não consegue avançar porque não existe um começo.

Tirar da cabeça depende de, essencialmente, você saber como processar aquela informação. Porque de nada adianta apenas escrever em um papel e deixar a anotação morrer ali. Para efetivamente tirar da cabeça, você precisa ter um modelo de raciocínio pra lidar com aquilo.

Quando o David Allen fala que não temos problemas, e sim projetos, ele está propondo uma mudança de raciocínio. Em vez de deixar a situação como um problema difuso na mente, nós damos forma e nome para ela. Começamos a pensar naquela situação como algo que tem um resultado desejado e um próximo passo possível.

Esse raciocínio pode ser aplicado a praticamente qualquer coisa da vida.

O primeiro passo é identificar o que parece ser o problema. Aquela situação que está incomodando, preocupando ou ocupando espaço na sua cabeça.

Depois vem uma pergunta muito importante: como seria se isso estivesse resolvido? Ou seja, qual seria o resultado desejado. Como você saberia que essa situação melhorou ou foi resolvida. O nome do resultado desejado, quando escrito de forma sucinta, frequentemente pode ser o nome do próprio projeto.

Quando existe um resultado desejado claro, fica muito mais fácil identificar a próxima ação. A próxima ação é o menor passo concreto que pode ser feito agora para caminhar naquela direção.

Nesse momento, algo interessante acontece. Aquilo que antes parecia apenas um problema começa a se transformar em um projeto. Existe uma direção e existe um começo.

Um exemplo simples ajuda a visualizar.

Imagine que você percebe que o prédio onde mora tem problemas de segurança. Enquanto isso fica apenas como um problema na sua cabeça, a sensação pode ser de impotência. Parece algo grande, coletivo e difícil de resolver. Você pensa nisso todos os dias. Reclama disso sempre!

Quando você aplica esse raciocínio, começa perguntando qual seria o resultado desejado. Talvez algo como sentir-se segura dentro do seu apartamento. A partir daí fica mais fácil pensar na próxima ação. Uma possibilidade pode ser perguntar ao proprietário se é possível instalar uma fechadura adicional na porta do apartamento.

O prédio continua sendo o mesmo e a situação do condomínio não muda imediatamente. Mas agora existe um passo claro que melhora a sua realidade. Aquilo que antes era apenas uma preocupação virou algo que pode ser cuidado. E aí você coloca o nome do projeto como mais um item da sua lista de projetos.

Esse tipo de pensamento é muito poderoso porque tira as coisas do campo da preocupação e coloca no campo da ação. Muitas situações da vida ficam pesadas porque estão mal definidas na nossa mente.

Quando damos forma para elas, definindo um resultado desejado e uma próxima ação, começamos a criar movimento.

Para ilustrar bem a ideia de que problemas podem se tornar projetos, é interessante trazer exemplos simples do cotidiano. Coisas que muitas pessoas carregam na cabeça como preocupação, mas que podem ganhar forma quando definimos um resultado desejado e uma próxima ação.

Aqui vão alguns exemplos que ajudam a visualizar esse raciocínio.

1. “Minha casa está sempre bagunçada.”
Resultado desejado: ter uma sala organizada e fácil de manter no dia a dia.
Próxima ação: separar 20 minutos para destralhar a mesa da sala.

2. “Estou sempre cansada.”
Resultado desejado: dormir melhor e acordar com mais energia.
Próxima ação: marcar uma consulta médica para avaliar sono e rotina.

3. “Tenho muitas coisas acumuladas.”
Resultado desejado: reduzir a quantidade de objetos em casa.
Próxima ação: separar uma caixa de itens para doação.

4. “Minha mesa de trabalho está caótica.”
Resultado desejado: ter um espaço de trabalho funcional e limpo.
Próxima ação: esvaziar completamente a mesa e reorganizar apenas o essencial.

5. “Estou preocupada com minhas finanças.”
Resultado desejado: entender exatamente para onde meu dinheiro está indo.
Próxima ação: abrir o extrato bancário e listar os gastos do último mês.

6. “Sinto que estou distante de algumas pessoas importantes.”
Resultado desejado: retomar contato com pessoas queridas.
Próxima ação: enviar uma mensagem para marcar um café.

7. “Tenho muitos papéis espalhados.”
Resultado desejado: ter todos os documentos organizados em um único lugar.
Próxima ação: reunir todos os papéis em uma caixa para começar a triagem.

8. “Minha casa precisa de pequenos reparos.”
Resultado desejado: resolver pendências básicas da manutenção da casa.
Próxima ação: fazer uma lista dos reparos e pesquisar um profissional.

9. “Quero ler mais, mas nunca consigo.”
Resultado desejado: voltar a ter uma rotina de leitura.
Próxima ação: escolher um livro e ler dez páginas hoje.

10. “Minha caixa de entrada está impossível.”
Resultado desejado: ter uma caixa de entrada sob controle.
Próxima ação: processar os primeiros 20 e-mails.

Todos esses exemplos mostram a mesma lógica. Quando algo fica apenas na categoria de problema, ele tende a gerar peso mental. Quando definimos qual seria o resultado desejado e qual é a próxima ação possível, começamos a transformar a situação em algo que pode ser cuidado passo a passo.

Essa forma de raciocinar é algo que eu uso o tempo todo. Serve para decisões pequenas do cotidiano, para questões da vida prática e para situações maiores também. Muitas vezes não precisamos resolver tudo de uma vez. Precisamos apenas transformar aquilo que parece um problema em algo que tenha um começo possível. E muitas vezes esse começo é só uma próxima ação bem pequena.

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