“Sangra” (2026)
“Sangra” (2026)

Esta semana lancei nas principais plataformas musicais o álbum "Sangra", com 14 canções inéditas minhas.

Há um momento, logo no início de Sangra, em que eu percebo que este não é apenas mais um disco de rock e pop meu. É um trabalho que realmente sangrou de uma tensão constante entre controle e excesso. O que eu construo com essas músicas não é para chamar a atenção de forma direta, mas se organiza aos poucos, até que quem ouve comece a perceber as camadas. Entre referências urbanas, contenção emocional e algumas perguntas que atravessam o disco inteiro, Sangra não se propõe a explicar nada. A ideia é mais ouvir, observar e deixar que cada pessoa reconheça, se fizer sentido, algo de si mesma nesse processo.

A lista de faixas ajuda a entender esse percurso com mais clareza. Sangra abre com “Grito”, que estabelece o tom mais físico e imediato do disco, antes de passar por deslocamentos como “Pirata” e “Ela não sabe cantar”, onde já aparece uma ironia mais direta e um certo desconforto com a própria ideia de performance. Em “Maus” e “Hegemonia”, o foco se desloca para o coletivo, para o que se repete e se normaliza, sem necessariamente ser nomeado de forma explícita. A faixa-título, “Sangra”, funciona como um eixo, quase como uma síntese do que o disco propõe, antes de abrir espaço para momentos mais íntimos em “Do outro lado do mar” e “Não sai da cabeça”.

Na segunda metade, o disco se aproxima ainda mais do corpo e das relações. “Templo” retoma a ideia de estrutura e controle, enquanto “Encabulado” traz um respiro mais leve, sem perder o olhar irônico que atravessa o trabalho. “Outro dia” e “Cinza” mantêm essa linha mais cotidiana, até chegar em “Foto de papel”, que introduz uma sensação de memória e permanência. O encerramento com “Pensamento raso” funciona quase como um comentário final, reduzindo tudo a uma frase simples e incômoda, como se depois de todo o percurso ainda restasse uma pergunta sem resposta.

ⓘ Um ponto importante no processo de Sangra é como a tecnologia foi usada. A mixagem final e alguns efeitos foram feitos com ajuda de inteligência artificial, mas todas as músicas, letras, melodias e gravações foram criadas por mim, do jeito tradicional. A inteligência artificial entra depois, só para ajustar o som e dar acabamento. Não é para substituir a criação, mas para ampliar o que já foi feito. Ainda quero falar mais sobre esse processo no futuro, mas achei importante já deixar isso claro aqui.

O que levou esse disco a existir?

Ele não começou como um projeto fechado, apesar de eu conseguir reconhecer quando algo assim novo esteja nascendo. Eu sinto quando um disco começa e quando outro termina. É como se eu estivesse encerrando um capítulo da minha vida e começando outro, mesmo que isso ainda não esteja claro no início. As músicas vão surgindo aos poucos, a partir do que eu estou vivendo no dia a dia. Experiências, conversas, sentimentos, frases que ficam, ideias que aparecem sem aviso. Eu não organizo isso antes. É uma questão de contemplação do dia a dia. Quando vejo, vai se construindo um conjunto. Ficam dentro de um consenso, uma ideia, uma estética musical. Um álbum é uma fotografia daquele meu momento. Longe de ser perfeito. Vou produzindo as músicas até que percebo que ele é concluído.

Existe uma lógica na ordem das faixas?

Essa pergunta é bem interessante, porque sim, a sequência é uma narrativa que faz sentido dentro da cabeça do artista. Mas as músicas não foram compostas, criadas, em uma ordem. Elas foram surgindo. À medida que vão sendo mixadas, eu consigo ir organizando em uma sequência que faz sentido para mim. Eu escuto o que já está ali e tento respeitar esse movimento. A ordem final é menos uma decisão racional e mais um reconhecimento de como essas músicas conversam entre si. Ouvir na sequência é bacana, mas a ideia é que as músicas funcionem de maneira independente também.

Como é trabalhada cada música?

Eu gosto de trabalhar com uma ideia por música, sem tentar esgotar tudo ali dentro. Tem coisas que poderiam ir mais longe, crescer mais, explicar mais. Mas, no processo, eu fui sentindo que nem tudo precisava chegar nesse lugar. Quando você tenta resolver tudo, às vezes a música perde força. Eu prefiro parar um pouco antes, quando ainda existe alguma tensão. Nem tudo precisa ser fechado para fazer sentido. Em muitos casos, é o que fica em aberto que continua reverberando depois que a música termina e eu acabo usando isso em outras composições que nascem depois.

Algumas músicas trazem sempre alguma abordagem do cenário político atual. Por quê?

Porque tudo é político. Tudo o que faz e expressa é um posicionamento seu perante à sociedade. Eu não comecei o disco com a intenção de fazer algo político de forma direta. Mas as referências acabam entrando, porque fazem parte do que eu estou vivendo e observando. Em algumas músicas isso aparece mais claro, em outras fica mais implícito. Eu não tenho muita vontade de explicar ou nomear tudo de forma explícita, porque isso fecha a interpretação muito rápido. Prefiro mostrar situações, comportamentos, sensações, e deixar que cada pessoa reconheça o que fizer sentido. O que está ali pode ser lido de várias formas, e isso me interessa mais do que conduzir para uma única leitura. Mas algumas vezes eu acabo sendo literal também. rs Depende.

O que permanece quando o disco acaba?

Eu acho que cada pessoa vai sair com uma coisa diferente. Não é um disco que tenta conduzir para uma conclusão única. Para mim, o que fica é mais uma sensação do que uma ideia fechada, um incômodo leve ou alguma percepção que antes passava batido. Ao mesmo tempo, o disco também serve como uma forma de me conhecer melhor. Nem todas as músicas são sobre mim diretamente. Eu uso ideias, situações e acontecimentos da vida como um todo. Mas, mesmo quando não são autobiográficas, elas passam pela minha forma de pensar e sentir sobre aquilo. E sim, algumas músicas são sobre mim também. No fim, o que fica é esse conjunto, um jeito de ver e processar as coisas, mais do que uma história única ou uma explicação.

Por que o disco se chama "Sangra"?

O nome veio depois de boa parte das músicas já existirem, mas especialmente da música de mesmo nome, que achei que trazia um grande impacto à ideia do disco. Em algum momento, eu lembrei de uma ideia muito atribuída ao Ernest Hemingway, de que ele disse que escrever é como "sangrar no papel". Isso fez sentido com o que já estava acontecendo no disco. Também tem uma camada mais corporal nisso tudo. Para mim, o nome se conecta com o ciclo menstrual, com a forma como o corpo atravessa fases diferentes, com variações de sensibilidade, de energia, de libido da mulher. Depois dos meus 40, isso ficou ainda mais evidente. E grande parte das composições foram escritas durante o meu período fértil no ciclo menstrual. Isso explica bastante coisa. Quando o nome apareceu, ele não explicou o disco, mas reconheceu o que já estava ali.

Como esse disco se relaciona com o que é feito fora da música?

Eu não vejo como coisas separadas. O que eu estudo, escrevo e ensino aparece aqui de outro jeito... como tema, como forma... Eu venho pensando há um tempo sobre comportamento, repetição, escolha, sobre o que a gente tenta organizar e o que não cabe nisso. Não quero explicar nada disso nas músicas, apenas citar, trazer, reconhecer. Para mim, tudo faz parte do mesmo trabalho, só muda a linguagem. Em um lugar eu elaboro, em outro eu experimento. O disco é mais direto nesse sentido, menos filtrado.

Que questões citadas nas músicas precisam ser resolvidas?

Não tenho essa intenção. Não vejo como algo que precisa ser resolvido. Tem uma expectativa de que, quando você entende alguma coisa, você passa a controlar melhor, mas nem sempre é assim. Para mim, escrever a música é apenas um desabafo que eu precisava fazer para resumir e finalizar a questão internamente. Se alguma coisa muda depois, é consequência, não objetivo.

Ouça o disco nas principais plataformas de streaming de música, como o Spotify.

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