O custo da minha tese de doutorado
O custo da minha tese de doutorado

Eu vou defender a minha tese de doutorado esta semana. Não há mais tempo para medo ou aflições, apesar de a ansiedade ser inevitável nesse caso. É uma semana de me preparar psicologicamente para apresentar o que já foi feito (e alimentar um documento deprimente de errata...) e procurar chegar o melhor possível para defender um trabalho que, sim, teve a minha dedicação e é importante. Mas ele está longe do que acreditava que seria, não por perfeccionismo, mas porque eu fui profundamente afetada nos anos de trabalho nessa pesquisa, grande parte influenciada pela escolha de fazer essa tese. Se prepara que a ideia dessa leitura é ser crua, honesta, melancólica até, porque preciso colocar isso pra fora pra conseguir fazer minha apresentação esta semana. Então obrigada pela leitura desde já. Vai ser um texto difícil.

Assim, gente... rs Vou listar tentando resumir todas as coisas que aconteceram desde que eu entrei no Doutorado, na medida do possível:

  • Pandemia e ficar em casa
  • Separação oficial no meu ex-casamento
  • Peguei Covid em uma emergência médica antes de ter vacina (me afetou profundamente, especialmente a memória e o cognitivo)
  • Tive uma anemia severa e precisei voltar a consumir carne, mesmo que pouco
  • Sofri um sequestro relâmpago na porta da faculdade e achei que fosse morrer
  • Voltei a beber álcool depois de anos sem e não foi saudável
  • Fiquei com depressão e ataques de pânico no intercâmbio, longe do meu filho e cachorros
  • Tive uma relação muito complicada com pessoas que não quero expor
  • Desfiz amizades com pessoas que trabalharam comigo e me passaram a perna
  • Precisei entregar meu apartamento por n motivos
  • Fui abusada emocional e psicologicamente por pessoas em um momento que eu estava muito vulnerável (quase não dá pra contar nos dedos das mãos e isso é muito triste)
  • Quase tive uma overdose na Polônia porque meu médico anterior passou uma superdosagem errada do remédio que eu estava tomando para TAG
  • Desenvolvi uma fibromialgia que me debilitou enormemente
  • Descobri que tinha TAG e TDAH (mesmo que em um grau leve)
  • Descobri que estava na perimenopausa e com sintomas precoces relacionados
  • Quebrei a perna em um acidente na Alemanha; depois quebrei a costela quando cheguei no Brasil
  • Minhas duas gatas pegaram pneumonia ao mesmo tempo, uma delas ficou internada
  • Meu apartamento foi invadido por uma maluca um mês depois que eu me mudei (e estava na cadeira de rodas)
  • Uma pessoa muito próxima mentiu para mim e para pessoas ao meu redor para ter controle sobre coisas na minha vida
  • Terminei um relacionamento
  • Eu tive tentativas de ... no ano passado, o pior ano de todos

Eu me reergui e fiquei bem, até para poder falar sobre tudo isso. Mas os anos do doutorado foram extremamente difíceis pois coisas além do doutorado mas MUITAS coisas derivadas dele. Teve coisas boas? Claro que sim, e busco falar sobre elas todos os dias. Mas eu achei importante escrever este post para mostrar o custo de tudo isso. Para mostrar que não foi fácil. Que talvez eu nem seja aprovada. E como eu cheguei até aqui com a mente preparada para isso, se acontecer.

Cheguei num ponto de querer desistir. Muitas vezes mas, em definitivo, há cerca de dois anos. Eu estava na Alemanha e tinha acabado de descobrir que estava tomando a dosagem errada de um remédio e quase fui de base por conta disso. Estava completamente desestabilizada. Não sei o que teria feito se não fosse meu namorado na época e uma amiga que recomendou um médico certeiro que virou meu braço direito até hoje. Nem era questão de só cansaço acumulado (o que já seria mais do que justo, afinal sou mãe, autônoma etc.), mas sobrevivência real. Eu estava no meu limite.

Depois de pensar muito sobre tudo, eu não desisti porque já tinha passado por coisas demais para parar justamente ali. Porque a tese importa — para mim e, de alguma forma, para o mundo. Porque, depois de tudo o que aconteceu, eu sentia que concluir seria também uma forma de justiça comigo mesma. Uma forma de dizer: eu atravessei isso, e ainda assim cheguei até aqui. Se eu desistisse, era como se tudo o que passei tivesse sido em vão, ainda que saibamos que não teria sido, pois tudo é aprendizado e blablabla. Mas eu queria terminar. Era apenas o próximo passo que eu tinha que dar, e não ficar pensando se queria realmente ser doutora ou pesquisadora ainda, porque tudo isso entrou em questão. Era essa a vida que eu queria? Really?

Mas assim... para continuar, eu tive que colocar alguns limites. Precisei me envolver menos emocionalmente com o texto, com a pesquisa, com o tema. E isso foi difícil porque só aceitei fazer um doutorado, entrar nessa de novo, porque eu achava o tema importante e era apaixonada por ele. Precisei aceitar um desapego que eu não queria aceitar. Porque há um ponto em que insistir demais em fazer algo perfeito deixa de ser virtude e vira risco. E eu já tinha entendido, do jeito mais duro possível, que ou eu desapegava e terminava a tese com o suficiente ou como eu poderia, dadas as condições, ou a tese acabaria comigo. Bom, eu não diria que não acabou. Eu fiquei destruída.

Precisei cuidar da minha saúde. O meu ano passado foi inteiro sobre isso, mas foi um ano muito difícil. Eu comecei a melhorar em dezembro. Novembro foi o pior mês de todos. Foi um processo dolorido e demorado, mas passou. E passou finalmente quando eu, aos poucos, fui retomando quem eu sabia que eu era. Aquela versão minha que estava atrás da neblina que embaçava as lentes dos meus óculos. Eu sei o que faz bem para mim, o que me deixa bem, e acima de tudo quem eu sou. Mas eu não tive forças antes. Eu estava colocando o foco em todo mundo. Naquele momento, coloquei em mim, porque eu sabia que, se eu melhorasse, isso impactaria todos ao meu redor, especialmente meu filho. Que foi quem eu sempre preservei, mesmo em meio a isso tudo. E, aos poucos, fui começando a voltar. Hoje, eu não estou 100%, mas estou reconstruindo com foco e qualidade. Estou bem. Cabeça no lugar. Lidando com as coisas como têm que ser - "você não tem problemas, você só tem projetos", já dizia David Allen. E ficar bem é inegociável. O que é melhor para mim em primeiro lugar. Nunca mais passar por cima do que sei que gosto, que é o mais saudável, que é o certo. Essa foi a grande mudança de chave para eu me empoderar (apesar de odiar esse termo rs) e ser quem eu sou de verdade. Me valorizar mais. Lembrar das minhas conquistas. Inclusive para chegar na defesa do doutorado e dar o meu melhor. E, se esse melhor não for suficiente, paciência. Eu não poderia fazer algo diferente de quem eu sou. Lido com as consequências. E é isso. Pra tudo.

No fim, para não me estender muito neste texto, queria concluir dizendo que talvez seja isso: eu não terminei a tese porque estava pronta - a pesquisa ou eu. Eu terminei porque não havia mais como adiar o fim desse doutorado sem me perder de vez ou sem eu mesma chegar ao fim. Melhorar terminar o doutorado que ele acabar comigo. O doutorado é uma etapa da minha vida como pesquisadora e da minha vida profissional. Uma etapa muito importante, sem dúvida, mas não uma sentença de vida, um destino escrito em pedra. Tem luz no fim desse túnel. Bora que tá chegando.

(Torçam por mim 🙏🏻)

4 thoughts on “O custo da minha tese de doutorado

  1. Feliz Dia das Mães querida Thais. Acabei de ler seu post e estou muito impactada. Estou aqui, você sempre foi minha amiga sem saber, é muito importante na minha vida! Torcendo por você sempre, obrigada por tudo.

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